No caminho da palavra

Houve um tempo, segundo Calvino no seu Cavaleiro Invisível, que “era uma época em que a vontade e a obstinação de existir, de deixar marcas, de provocar atritos com tudo aquilo que existe, não era inteiramente usada, dado que muitos não faziam nada com isso – por miséria ou ignorância[...]“; esse tempo ressurge em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Considerado pela crítica especializada (ela existe?) como um romance social ou do ciclo da seca, é assim repassado a quem interessar possa. Abandona-se um longo e pedregoso caminho, apequena-se possibilidades que o autor levou às últimas conseqüências. Analisado de modo simplista, os ingredientes estão todos lá, a caatinga, os viventes, as aves de arribação, os animais mortos, urubus que “arrancam olhos”. Uma vez ultrapassado esse primeiro contato, um novo mundo se descortina ao leitor; caímos no reino do onírico, das prospecções dos abismos da alma, da incomunicabilidade, do pesadelo, da condição humana como um fardo da existência, e temos uma busca paradoxal no encalço da linguagem, da palavra que falta, que grita, que pode salvar.

As personagens atravessam a narrativa perdidos entre tempos desconexos, são retirantes, vagam atrás de um lugar melhor, mas, principalmente, buscam um espaço onde possam estar nesse mundo. Suas ferramentas são parcas, se comunicam, ou ao menos tentam, guturalmente. O papagaio arremedava a todos, pois os sons eram puramente onomatopéicos. Transbordam de vazios incompreensíveis, se ressentem dessa falta maior: a linguagem. Quando Fabiano descobre que os filhos “têm idéias”, se assombra; o crescimento deles, essa possível curiosidade cria “uma perturbação que sente”, pois para ele é mais simples ensinar a praticidade do trabalho. Seus pensamentos quase transbordam pois se lembra do amigo Tomás da bolandeira, o “mais arrasado homem do sertão”, “porque lia demais”. Segundo Fabiano “pessoa como ele não podia aguentar verão puxado”. Temos aqui um darwinismo total, no sertão até os fortes tem dificuldades de sobreviver, por isso é preciso ser forte e simples sempre, pois a morte está sempre se “avizinhando a galope”.

Através das técnicas freudianas do fluxo da consciência, as personagens travam seus diálogos silenciosos. Tudo se conecta e se perde em instantes. Fabiano diante do soldado amarelo pensa que diz e não fala, quando fala não diz: “Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto etc. É conforme”. Graciliano entrecruza o seu texto com conjugações verbais que desnorteiam o leitor, passado, presente e futuro se misturam, criando atmosferas oníricas, de sonhos ou pesadelos. Preso Fabiano na cadeia e na falta de linguagem “queria berrar para a cidade inteira”; a fuga de um drama se dá recordando de outros piores, mas conhecidos, assim logo devaneia com a seca e com suas faltas. Sinhá Vitória sofre com seus pensamentos que flutuam num ir e vir monocórdico, desfragmenta-se, chega a duvidar até do que está pensando: “Encostou o fura-bolos à testa, indecisa. Em que estava pensando?”.

Como passamos o texto lado a lado com o narrador, nos perdemos nesse descaminho, onde estamos agora? Quem está pensando o quê? É tênue esse limite, só sabemos que o narrador é culto e que nossos heróis são capengas no falar, limitados e flutuantes no pensar. “Nesse ponto as idéias de sinhá Vitória seguiram outro caminho”; é assim como um carro de bois, aos trancos e barrancos, que a história segue. Quando Fabiano diz que sinhá Vitória tinha “pés de papagaio” isso faz com que ela se lembre do papagaio que virou almoço e logo a seguir da seca, pesadelo maior e que sempre volta num eterno retorno.

Graciliano consegue, e talvez seja um dos melhores nisso, introduzir no texto imagens translúcidas, aproveitando para, através delas, alcançar as prospecções dos abismos da alma; suas fraquezas, seus desejos, suas surpresas e indignações. Os meninos quando chegam à cidade se admiram de tudo “Impossível imaginar tantas maravilhas juntas”. Sabemos quando estão desconfortáveis e queremos até ajudar nesse momento ruim, para Fabiano a roupa nova é como a prisão; os pés de sinhá Vitória doem horrivelmente. Estar assim entre tantas sensações reais e outras devaneadas, desnorteia. Leitores e personagens ficam como que perdidos “Impossível readquirir aquele instante de inconsciência” avisa o narrador; Fabiano rebate nesse diálogo que parece só deles “- Como a gente pensa coisas bestas”. De monólogo em monólogo nos assustamos quando Fabiano se pergunta “Quantos anos teria?”, perdido e despersonificado, ele existe mesmo ou é só um sonho?

Mas é na busca da palavra, de uma linguagem que os recrie, que Graciliano se esmera. É uma batalha feroz, todas as personagens sentem falta ou são surpreendidos pela palavra: o menino mais novo quer falar, faltam-lhe esses apetrechos verbais. Admira o pai e não consegue exprimir isso. O menino mais velho aprende a palavra inferno, quer saber o que significa, mas sem ter como lhe explicar “sinhá Vitória aplicou-lhe um cocorote”; ele “tinha um vocabulário tão minguado como o do papagaio”, acha que “todos os lugares conhecidos são bons”; a descoberta da palavra inferno já é uma admiração. Quando se reúnem em volta do fogo no inverno (e assim se assemelham aos homens das cavernas ou até às sombras da caverna de Platão) sentiam necessidade de verem o rosto de Fabiano para tentarem decodificar o que ele falava, pois é como se assim fosse possível domar as palavras que saiam da boca dele.

Nessas histórias contadas à luz de fogo, Fabiano mente, aumenta, reconta com palavras diferentes (como se fosse possível), o filho mais novo não gosta “Teria sido melhor a repetição das palavras” avisa o narrador que diz também que o menino “Brigaria por causa das palavras”. Na festa da cidade, os meninos se maravilham com tudo e “nova dificuldade chegou-lhe ao espírito, soprou-a no ouvido do irmão, provavelmente aquelas coisas tinham nomes”; e assombro maior “Como podiam os homens guardar tantas palavras?”, pois “livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas”; é a mesma surpresa que teve Cortéz, conquistador do México, que numa carta para o rei da Espanha diz: “eu queria falar de outras coisas da América, mas não tenho a palavra que as define nem o vocabulário necessário”. Quando sinhá Vitória é capaz de pensar logicamente, cortando caminho: “as aves de arribações matam o gado”, Fabiano se admira, a considera muito esperta e sente-se feliz por tê-la como companheira. E na hora da fuga, quando o sertão está novamente em brasas é devaneando nas palavras de sinhá Vitória que Fabiano encontra forças para continuar: “As palavras de sinhá Vitória encantavam-no”. “E andavam para o Sul, metidos naquele sonho”. Sonhos trazidos pela palavra, ou palavras que levam ao sonho, mas de toda maneira palavra que é a única que salva quer seja na vida ou no devaneio.

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Kawabata e as prisões do ser humano

De vez em quando lembro que tenho textos espalhados por aí… como esse sobre o livro A Casa das Belas Adormecidas do Yasunari Kawabata… então, ponho aqui, vai que alguém resolva ler esse autor tão sui generis….

Yasunari Kawabata fez muito mais que livros, sua concepção de como contar uma história ia sempre além de incluir significados na espuma leve do texto; a busca dessas vivências para o leitor deveria ocorrer no corpo cavernoso dos detalhes. A Casa das Belas Adormecidas é assim, muito mais que só um texto sobre ninfetas dormindo para o deleite de “velhos decrépitos”, e sim um mergulho na grande luta do ser humano, tentando conviver e sobreviver às prisões que a vida lhe impõe.

Toda a delicadeza com que conseguia forjar “insólitas associações e metáforas táteis, visuais e auditivas que surpreendem por revelar os processos de fragilização do ser humano diante do cotidiano”, ainda não diz tudo sobre essa intensa luta que o velho Eguchi trava nas noites mal (mesmo que bem acompanhado) dormidas, com esses entraves quase invisíveis da nossa vida.

O nosso dia a dia é um dos vilões, cheio de nuances, possibilidades, ambigüidades. Em vigília criamos barreiras para não deixar transparecer os nossos pequenos infernos pessoais, o corpo é um exemplo disso, sendo um invólucro que envelhece e se enfraquece e lidamos com essa e outras complicações da nossa vida muito mal; as recordações movidas pelas livres associações, onde como dizia Freud “o inconsciente é o próprio psíquico e a sua realidade essencial” é outra dificuldade; a atmosfera de sonhos onde “há um conteúdo manifesto que recordamos e contamos quando acordamos, que nada mais é do que pura fachada, máscara” também. São nesses universos que circulamos, num misto de concretudes e abstrações. São essas as pontes que Kawabata levanta ou demole na passagem do seu texto.

O livro conta a história de um velho que descobre, através de outro idoso, um local onde ele poderia passar a noite ao lado de uma jovem virgem, nua, adormecida quimicamente, fato que acende na nossa personagem um último resquício de desejo e talvez os últimos de moralidade, mas uma vez instalado na cama o que vemos é ele ser remetido ao reino das lembranças e também do onírico. Uma vez dentro desse quarto, ao lado de sua “bela adormecida”, transborda o duelo entre o real e o irreal, ou como dizia Breton: “tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde”, talvez seja para não perder essa crença na vida real que o velho Eguchi procure o local; uma vez nele, é como se penetrássemos numa via de várias possibilidades.

O que existe de concreto e pode ser tocado, a “chave comum”, o cigarro, as cortinas que “pendiam nos quatro lados do aposento”, a porta, a garota com a “mão direita até o punho para fora da coberta”, se mistura à atmosfera de irrealidade que se instala diante da “surpresa de ser conduzido de repente para fora do real de sua vida cotidiana”. Pronto a cena, o que vamos assistir então é essa mistura de sensações, de mundos. O corpo nu, morno ao seu lado, é a porta de entrada para recordações pungentes, logo Eguchi se perde entre o presente, tão irreal quanto os agora fatos passados, “bem modesto é agora o seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu”, já falava Breton no Manifesto Surrealista. “Nos seus 67 anos de vida, o velho Eguchi com certeza conhecera noites deploráveis. E essas noites lhe deixaram marcas das mais inesquecíveis. O deplorável não provinha da falta de beleza física das mulheres, mas de suas tragédias, suas vidas infelizes”, o caminho para dentro de si, pode ser a salvação, e logo “recordações secretas” o alcançam.

Essa metáfora do quarto como sendo a nossa memória é comum na literatura, Kawabata não foge dela mas a amplia no limite pois as ações são mescladas e quase podemos vê-las ocorrendo ao mesmo tempo, embevecido com um seio jovem (que tem para ele um “formato tão belo”), deitado numa cama aconchegante, tendo, entrado numa viagem de reminiscências, quem sabe a sua última viagem e quem sabe “a última mulher da minha vida?”. Surgem cidades, Kyoto, com a “ferrovia de Hokuriku”, as “camélias despetaladas em plena floração”, um hotel em Kobe com uma amante.

São nesses momentos que podemos entender o que separa um grande autor dos outros reles mortais ou aprendizes de feiticeiros, um bom livro fica tanto quanto melhor, conforme a quantidade de caminhos que temos que trilhar para entendê-lo. A decrepitude do corpo, onde “já que a menina não acordava, o cliente idoso não precisa envergonhar-se do complexo de senilidade, e ganhava permissão de perseguir livremente suas fantasias a respeito das mulheres e mergulhar em recordações”, é onde nasce o reino das lembranças, amargas para quem não pode fazer mais do que ver e sentir “um êxtase inconsciente”; sendo o próximo passo o sonho “e o velho Eguchi sonhou”. Reinos misturados onde conforme Breton “alucinações, ilusões etc são fonte de gozo nada desprezível”.

Aparentemente a pequena história, com um quê de romântico pervertido; um velhinho nos últimos dias da vida, uma jovem adormecida que não sabe o que acontece enquanto dorme; logo tudo transcende, a velhice não é o melhor dos mundos, e é no mundo da imaginação, das memórias que todos nós nos refugiamos durante a vida toda, mas o fazemos pelo puro prazer de sonhar coisas belas, momentos de preparação para alcançar o sublime, concretizar planos. Só que é para esse reino que nos mudamos na terceira idade, agora presos ao invólucro do corpo, as lembranças não são mais só uma fuga prazerosa e sim um calabouço onde sonhos e pesadelos se misturam ao concreto e ao impossível da vida; vida essa, que nessa etapa, não tem nada de “melhor idade”, e quase sempre é de faltas e não de sobras, onde podemos vislumbrar só “uma luz misteriosa na profundidade das trevas”. E quais são as prisões do homem? O corpo e a mente…o concreto e o abstrato, vivemos entre esses universos diariamente mas na velhice ele não é mais uma janela prazenteira e sim com grades e alarmes nos lembrando que o tempo passou e nos enroscamos desastradamente nos fios da vida.

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Por quem os sinos dobram, Tremendão?

A vida conhece caminhos que nunca chegaremos a apreender de todo. A vida do Tremendão tem meandros inacreditáveis, e está sempre a colocá-lo à prova: “sempre mais” – parece bradar ela, pra ele. E ele, dentro das suas limitações, impostas por ela, tenta se adequar.

Pra quem não se lembra, Tremendão era meu aluno no ano passado, por conta de um acidente de trânsito quase ficou tetraplégico (pois pode, em tese, voltar a andar), e ficou com outras seqüelas (como se ficar numa cadeira de rodas já não fosse o suficiente). Eu disse era, pois nesse ano ele não vai estudar. Seria seu último ano na EJA, conseguiria a diploma do ensino médio que o acidente roubou. Mas a vida resolveu lhe pregar mais uma peça, essa, uma peça assustadora: a mãe morreu.

Fico pensando, incrédulo, como uma pessoa só nesse mundo tenha tanta dor pra sentir como o Tremendão, enquanto tantas pessoas flanam por aí, como que imunes aos sofrimentos. Para o Tremendão sofrer é quase uma obrigação. É como o ar que respiramos, é como a água que bebemos. Ele sofre desde que foi arrumar a perna da sua calça, pra que ela não enrolasse na corrente da moto e com isso, sem ter bebido, sem ter consumido drogas, abateu sobre ele não a morte, que essa seria até uma sorte; caiu sobre ele a maldição de Tântalo, ou quiçá a de Sísifo.

Desde esse dia, toda a família ficou presa a essa grande maldição. E dia após dia, repetiu-se a desgraça. Era ele tentando, era o pai tentando, eram os irmãos tentando; era, principalmente a mãe se doando de todas as maneiras possíveis. Ela que sucumbiu, não aguentando os anos do peso insuportável que lhe colocaram nas costas. Uma mãe e um filho doente, uma cena que se perpetua e nos atenua.

Aquela senhora de cabelos compridos e grisalhos, atados numa trança; passos curtos, sorriso tranquilo, rosto envelhecido. Ela, eu sei, escutava todas as aulas. Ficava ali, cozinhando. Insistia tanto para que eu comesse que agora, sabendo que ela morreu, fico triste, devia ter aceitado comer mais vezes. E a hora do lanche era o jantar do Tremendão, e ele comia frango frito, bife, purê, arroz, feijão, pão, bebia suco. E ela, que já tinha trabalhado tanto durante o dia, que já tinha levado o aluno para a fisioterapia, para o curso de informática, ainda assim só ia dormir depois que o aluno dormia.

Tinha dias que eu chegava e ela sumia, aproveitava pra tirar um cochilo. Em outros ela saia pra visitar alguma amiga. O professor itinerante era o sossego da mãe. Nas férias, sem professores invadindo o seu lar, ela descansou de vez.

A paz chegou para ela, e sobre o Tremendão veio a pena capital. Na cadeira de rodas, uma fúria o invadiu, foi levado para o posto de saúde, tranquilizado, encaminhado para uma clínica psiquiátrica. Não sei qual vai ser seu fim depois disso, se o que restou da família irá assumi-lo, se irão arrumar pra ele uma alternativa, espero muito que sim.

Da mãe ficará aquela fala doce, na hora que eu ia embora e ela dizia: “oh meu filho, hoje a aula foi muito boa”. Dele restará as partidas de xadrez, em que invariavelmente eu ganhava, o que parecia motivá-lo mais para tentar me ganhar numa outra vez. Já tínhamos combinados de voltarmos às nossas partidas.

Penso também no limite entre o profissional e o social; em até que ponto eu também sou responsável um pouco por ele. Não pra resolver nada, mas pra quem sabe, minimizar suas agruras. Recordo que ele me ouvia muito, mesmo que fosse pra se esquecer no minuto seguinte. Agora, sem a mãe, cujo maior pecado foi não ter preparado o filho para a sua falta. Nem chega a ser um erro, é mais instinto maternal. Resta agora a família dele, espero que ela não falte.

Quem sabe um dia podemos retornar as nossas partidas de xadrez, quem sabe…

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5 discos da minha vida

Até os vinte anos, nenhum disco ficou na minha memória, tá, ficou, mas não formaram meu gosto musical, só mexem de quando em quando com minha memória afetiva. Morava na Nhecolândia, terra inóspita, imperava a música sertaneja. Se fosse escolher teria que ser algum disco do Milionário e José Rico; Tonico e Tinoco; mas não tinha discos deles em casa, se ouvia tudo pelo rádio. Depois nos mudamos pra Corumbá, lembro dos primeiros vinis que compraram, eram trilhas de novelas, acho que compravam quase todas. Tinha lá também o disco mais vendido do mundo na época, aquela trilha sonora dos Bee Gees para o filme do John Travolta; agora pensando nisso, me pergunto: como era possível que pessoas vindas da roça ouvissem Bee Gees? O improvável acontecia. Sabe outro disco que tinha? O primeiro disco solo de Freddie Mercury. Queen? Quem era Queen? Outra coisa que ouvíamos era Roberta Miranda e Sula Miranda; nos botequins mais trashs da cidade elas eram a senha pra que os bebuns de plantão pagassem mais cervejas quando a colocavam pra tocar. Mas tudo mudou. Na verdade eu me mudei, vim pra capital, que de diferente da roça e da cidade pequena não tinha nada, até hoje não tem: vide Luan Santana, Michel Teló. Aqui minha vida seria ouvir discos do Zé Correia se não surgisse na minha vida, meu primo. Também vindo do interior do estado, só que do outro lado. Na sua casa, minhas primeiras audições de música, só que agora sem ser só música ambiente, e sim, com orientação. Alguns discos da minha vida vêm dessa época, os outros derivaram do gosto que passei a ter, depois das tardes que nos juntávamos no apartamento do meu primo, uns cinco caras dentro de um quarto mínimo, e no três em um, rolando grandes discos:

Pink Floyd – The Wall: ninguém tinha um The Wall como o do meu primo. A capa branca, o muro, era assinada por todos que iam à casa dele e ouviam o disco. Quando eu cheguei já quase não tinha espaço pra assinar. Foi aquele disco o primeiro que ouvi lá? Acho que não, mas ouvir The Wall era uma celebração. Lembro de uma festa que do nada todos estávamos dançando Another Brick the Wall, nos jogando contra as paredes, tentando derrubar o salão de festas do condomínio, que de verdade nem nos prendiam, devia ser só fúria adolescente. Hoje, já faz tempo que não ouço The Wall, até tenho ele em mp3, só que as músicas não combinam com meu estado de espírito atual, mas passei o bastão para minhas filhas e elas aprenderam a escutar, a ver o filme do Alan Parker.

Led Zeppelin – II: se tinha um disco que meu primo curtia muito, esse era o dois do Led. Ele nunca cansava de explicar os detalhes da guitarra do Page, de repetir o quanto Bonham era o maior baterista do mundo, o quanto baixo do Jones era emblemático, e como Plant era o melhor vocalista. Ele teria sido um grande jornalista musical, se não tivesse se tornado carismático. Whole Lotta Love era o hit naquele quarto, explicado à exaustão, depois de um tempo, em que já conseguia definir o que era baixo, sacar o trabalho da guitarra do Page, aí ficávamos lá, curtindo o som.

U2 – The Unforgettable Fire: de todos os discos do U2, lá tinha esse. E foi com esse que todos fomos iniciados no império U2. Não era um disco fácil, tinha o hit: Pride; mas era um disco introspectivo e isso era motivo de contemplação por lá. Tudo o que U2 esgotaria depois estava ali em embrião, um disco que salvou a carreira do U2, dali eles iniciariam o seu domínio sobre o mundo, mas então não, era um disco lindo, pra se curtir apenas.

Led Zeppelin – I: bom, teve muitos outros discos na casa do meu primo, mas teve a hora que meu gosto estava consolidado. Se tinha um disco que sempre faltou lá, era esse, o primeiro do Led; hoje seria fácil, um download e pronto. Naquele tempo não. Mas eu vi a luz. Minha primeira filha tinha nascido, estava meio doido, queria comemorar fumando charutos, mas sem querer me vi nos corredores das lojas Americanas e na seção de discos, eu encontrei a mais ou menos, em valores de hoje, R$ 5,00, o Led I. Comprei vários, presenteei meu primo e alguns amigos, e aquele disco perfeito, é até hoje trilha sonora inesquecível.

Faith no More – The Real Thing: agora, pai de família, um moleque, imberbe, mas já pai. Essa fita cassete original assombrou minha casa sem móveis, era só três em um na sala, e ouvia deitado no chão, ou sentado, encostado na parede. O bebê brincava por ali, quietinha, e para ninguém incomodá-la na hora do soninho, dormia ao som de Epic, From out Nowhere, delícia.

***

A vida seguiu, as trilhas sonoras continuaram e continuam… fica pra próxima vez…

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Por que lemos?

Lemos para nos distrairmos, nos abstrairmos dos problemas diários. Lemos por fuga, vontade de silenciar aquelas vozes chatas que insistem em ficar se repetindo dentro de nossas cabeças. Lemos para encontrar o belo que há na vida. Perceber o desespero das situações alheias. Ver como o outro enfrenta problemas, ou quando entra neles, como encontra a medida exata da fuga.

Lemos para encontrar o estranho que há no mundo, o complexo, o delicado, o fantástico, o indefinido, a realidade atroz. Lemos para agradar os mais velhos; os professores. Lemos para fingir que sabemos. Lemos para fazermos provas. Lemos para ficarmos transtornados. Para que o chão fuja dos nossos pés. Lemos para agradar a nós mesmos. Lemos para impressionar alguém que lê. Lemos aquelas palavras que vão se formando para que elas comecem a nos formar.

Ler é uma maneira de nos curarmos das dores do dia a dia. O mundo nos agride o tempo inteiro, alguns livros nos agridem outro tanto. Mas os livros não podem nos ferir. Quando muito podem localizar na gente uma dificuldade escondida, um medo. Lemos para ter medo. Lemos para compreender o tamanho desse medo.

Lemos para entender que quase nunca entendemos um texto bem na primeira vez que o lemos. As palavras têm vida e os sentidos das palavras vão mudando. As palavras mudam? Expliquei-me mal. O leitor muda. O leitor completa o sentido de um texto. Não existe autor se não houver um leitor fiel à palavra.

Ler é uma lição de vida: filhos imitam os bons hábitos dos pais, ler é um deles. Lemos para o filho dormir. Relemos para ele diversas vezes a mesma história: para ensinar divertindo. Lemos para confundir nossa cabeça. Para confundir a cabeça dos outros. Lemos quando estamos tristes, mesmo que não consigamos prestar atenção. Lemos quando estamos alegres e nos misturamos ao que lemos.

Quantos livros esquecemos por aí: suaves perdições. Lemos para podermos emprestar mais livros. Fingimos que lemos. Lemos para atrair o sono. Dormimos com o livro entre os braços. Lemos para sonharmos. Lemos para conquistar outros mundos. Lemos por desejo. Lemos para nos auto-ajudarmos. Lemos para nos apaixonarmos. Lemos para nos rebelarmos.

Lemos enquanto esperamos o médico, o ônibus. Lemos enquanto esperamos o futuro. Lemos no presente. Damos livros de presente: mensagem subliminar. Lemos dentro dos coletivos, aviões, nas camas, nos sofás, cadeiras, redes, chão. Lemos e vivemos. Vivemos e lemos. Fazemos os dois ao mesmo tempo e seguimos brilhando.

Lemos Dom Quixote e rimos. Lemos Shakespeare e lutamos contra Macbeth. Lemos Kafka para procurar o que não perdemos. Lemos Poe para ficarmos com medo. Borges para nos confundirmos. Machado para esboçarmos leves sorrisos. Proust é curativo para a pressa. Lemos tanto e tão apaixonadamente que sabemos que é dor a dor que deveras sentimos.

A cada livro terminado é como se tivéssemos mergulhado no rio de Heráclito. Somos outro e ninguém percebe. O silêncio dos livros. Lemos para nos perdermos. A Biblioteca de Babel é o nosso Éden. Lemos e cremos na leitura. Lemos com a mesma fé Bíblia e as Mil e Uma Noites; Alcorão e a Ilíada. Podemos ouvir o barulho da pedra batendo na cabeça de Golias.

Lemos Darwin. Marx. Freud. O tempo é relativo quando lemos, tal como disse Einstein. Lemos também para nada, sem um motivo aparente. A cada livro que terminamos rejeitamos combates inúteis. O livro resta riscado. Em nós as marcas são mais sutis e, por isso mesmo, mais profundas.

Lemos e nos comprazemos no ato de ler e sentir. Ler é abotoar no rosto um sorriso ou uma tristeza nova a cada página, a decisão é nossa e a tomamos como quem vem de um deserto: sedentos camelos. Bebemos a sabedoria na fonte. Ler é um dos diversos caminhos que podemos seguir, mas depois de o trilharmos, passado e presente se misturam em nós, os leitores, e o futuro é uma porta sempre aberta.

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Breve, num cinema perto de você

No cinema perto de casa, e no longe também, não passa nada que presta. Isso, desde sempre. Quando vão abrir cinemas para quem não gosta de super-mega-máxi-aventuras? Quando ficaremos embaixo daquela tela dos filmes que irão entrar em cartaz e salivaremos como quando diante de um cardápio maravilhoso?

Ver filmes hoje é escolher o menos ruim, ou não ir. Não ir significa não ter aquela sensação boa de ver um filme na telona, com som alto, os uhs e ahs da platéia. Ficar em casa significa que você terá que desligar sua televisão pois não passa nada que preste na tevê aberta; e ter tv a cabo pra quê se passo a maior parte do tempo fora de casa?

Tudo hoje no cinema é visto pelo viés da ação desenfreada, todos os filmes são missões impossíveis, em que impossível é não se agastar com meia hora de projeção. Tem filme hoje que quando termina é como se você tivesse corrido uma maratona. Tantas reviravoltas, cenas mirabolantes; chega a dar dor no grão dos olhos, como diria meu pai.

Por aqui fechou o cinecultura, pra nunca mais voltar, está morto e sepultado. Mas qual a razão de as salas de cinema como cinemark e cinépolis, as duas grandes redes que tem aqui, passarem nove filmes americanos e um brasileiro apenas? E o resto do cinema feito no mundo? Nada presta?

Sou contra reserva de mercado, mas nesse caso, se o cinema tem dez salas, deveria passar dois filmes brasileiros, dois europeus, dois latino-americanos, e dois do resto do mundo; para os americanos, os sanguessugas do cinema, que ficassem com as duas piores salas e lá se aboletassem quantos conseguissem entrar. Ou então que essas duas únicas salas fossem gigantes, pra colocar dentro quatrocentos tontos de uma só vez e pronto, ficariam felizes todos na sua ignorância.

É só ver os cartazes, tirando essa época em que ainda passam alguns indicados para o Oscar, festa tipicamente americana em que nós, resto do mundo, vivemos torcendo para termos um filminho qualquer nosso reconhecido, ainda passa um que outro filme razoável. Mas ninguém pode dizer que Piratas do Caribe 2, 3 e o 4 foram bons. Ninguém pode dizer que Imortais é um filme bom. Lixos que ainda são exibidos em 3D pra que o preço seja os olhos da cara.

Eu sei que numa sala em que estiver passando um filme iraniano não vai ter mais de vinte gatos pingados, mas esses gatos pingados não tem o direito de ver seus filmes favoritos no cinema? O “A pele que eu habito” do Almodóvor ficou em cartaz no cinépolis apenas por uma mísera semana, no dia que fui já era o último, e bye bye, no seu lugar entrou qualquer droga de hollywood.

Se reparar nem os desenhos animados escapam dessa lógica mercantilista: “Rango” é ou não um lixo? “Gato de Botas” é estranho ou não? O bom é que em matéria de desenhos animados alguns se salvam, como “Toy Story”, como “A Viagem de Chiriro”, ou “Persépolis”. Mas mesmo assim um filme como “Monstros S.A.” por exemplo é uma barafunda inacreditável, bonitinho, mas ordinário e caótico: parece treinamento pra quando as crianças crescerem.

O que rola é que cinema não é só comércio. Cinema é uma parte importante da lógica cultural de uma pessoa, de um país. É muito importante ver filmes, conhecer através deles, culturas diferentes da nossa. Hoje sabemos o quanto hollywood está impregnado em nossos hábitos. Achamos que adolescentes americanos se dividem em nerds e feios, jogadores de futebol americano e burros, meninas da torcida e gostosas, e as sonhadoras e inteligentes. Achamos que podemos topar com um serial killer a qualquer momento; que os mocinhos são implacáveis e lindos; que as mocinhas gritam e fazem sexo no meio do filme, qualquer que seja o filme. Achamos que iremos de uma hora pra outra salvar o mundo, virar de pobre sofredor a rico boa gente.

É isso, nestas férias, num cinema perto de você, se você não gostar de porcaria, não está passando nada que presta… e isso desde sempre…

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O tempo embaixo das unhas

Olho as pessoas ao meu redor, seguem esperançosas. Eu, como uma tomada, sugo delas a parte que me cabe de expectativas e sigo. O córrego em frente de casa continua seu rumo, pedreiros tentam consertar suas bordas que seguem desabando. Eu observo da minha janela o movimento incessante do shopping novo, entram e saem pessoas, eu entro de vez em quando, extasiado também com a possibilidade de trocar minha comida saudável por um coquetel calórico qualquer, por um chopp que custa o preço de duas garrafas de cerveja, pra sentir o clima ameno dos seus corredores e assim me sentir refrescado. O tempo vai seguindo sua toada, como a tropa do burrinho pedrês de Rosa. Como uma procissão que serpenteia pelas ruas de uma cidadezinha qualquer. O tempo sou eu todo dia enfrentando a nova jornada que me impus, para resolver meus problemas financeiros. Não os resolvi de todo, apaziguei-os. Não durmo mais pensando na conta de luz, no gás que poderia acabar, não me preocupo se minha filha virá e se terá ou não comida para abastecer seu corpo. Haverá comida, como sempre, e cada gota de suor que derramo nessa luta me agrada o espírito, e acalma a minha alma. As palavras duras ouvidas e que ficaram ecoando dentro de mim quando da separação aquietaram-se. Agora olho pra frente e posso planejar, tá, não planejo, pois sou desajeitado fazendo essas coisas, mas fácil era sonhar sonhos alheios, adequá-los aos meus. Cada pessoa sonha seu mundo, foi Borges quem viveu isso. E os sonhos são coisas particulares e realizá-los fazem um bem danado para quem sonhou. Sigo em aberto no quesito sonhos, eu me organizo para pensar o futuro, sou marcial na minha desorganização. Sei o que não quero para minha vida. Sei quais pessoas me machucaram e que estão sem a menor condição de aproveitar o meu convívio. Sei dos que quero para partilhar os meus dias vindouros, ainda tenho vagas abertas para novidades desse tipo. O tempo passa, meu cabelo quando cortado, cai em flocos cada vez mais brancos. O tempo se dissolve na paciência que tenho agora para todas as situações possíveis e improváveis. Nada me tira do sério, minha tranquilidade é o tempo embaixo das minhas unhas, guardada em dormitórios desconhecidos. Sou calmo, sempre fui, agora a sabedoria me ajuda a levantar da cama, a sabedoria dos meus cabelos brancos me faz silenciar na hora certa, me ajuda a remendar o que boca disparou sem querer. O tempo, eu sou um retrato do tempo. Com minha vontade de não ser. Com meu desejo de voar. Preparo provas… preparo aulas… ensino e (des)aprendo… (des)canso…

ps: escrevi esse texto meses atrás, nunca fui muito com a cara dele, mas é razoável o que vai nele…

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